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A criança que ainda mora em você

setembro 2026

Em que momento da vida a gente aprende que precisa ser tão adulto a ponto de esquecer como é ser criança?

Não existe uma despedida oficial. A gente simplesmente cresce. Chegam as responsabilidades, os boletos, os filhos, o trabalho, as cobranças, as perdas e as expectativas. Aprendemos a controlar o choro, cumprir horários e fazer o que precisa ser feito. E, em algum lugar desse caminho, podemos confundir amadurecer com endurecer.

Mas a criança não desaparece.

Ela continua vivendo dentro de nós. Está naquela música que nos transporta para a infância, no cheiro de uma comida, em um doce que desperta memórias, na vontade de dançar sem pensar se alguém está olhando. Está naquele lugar onde simplesmente existíamos, sentíamos e nos permitíamos descobrir o mundo.

E ela também pode aparecer nas nossas dores.

A Visão Sistêmica nos ensina que somos resultado das experiências que vivemos, das relações que estabelecemos e dos contextos aos quais pertencemos. Por isso, algumas atitudes da vida adulta podem carregar histórias que começaram muito antes.

Talvez aquela criança tenha aprendido que precisava agradar para ser amada. Que não podia dar trabalho. Que precisava ser forte. Que precisava ter um bom desempenho para ser vista. Talvez tenha assumido responsabilidades quando ainda precisava apenas brincar.

Aquilo que um dia foi uma forma de pertencer pode, na vida adulta, tornar-se pesado.

Por isso, resgatar a criança interior não significa voltar ao passado ou entregar a ela as decisões da nossa vida. Significa olhar para aquela menina e dizer: “Eu cresci. Agora eu consigo cuidar de você. Você não precisa mais dar conta de tudo sozinha.”

Talvez aí aconteça um encontro lindo: a adulta oferece segurança para a criança, e a criança devolve leveza para a adulta.

Uma traz responsabilidade. A outra, espontaneidade.

Uma conhece os compromissos. A outra ainda sabe brincar.

Uma organiza o amanhã. A outra sabe viver o agora.

E que tal aproveitar outubro, o mês das crianças, para promover esse reencontro?

Pinte sem precisar saber desenhar. Coloque aquela música da infância e dance. Ande descalça. Tome banho de chuva. Suje os pés de terra. Ande de bicicleta sentindo o vento no rosto. Compre aquele doce que você amava e perceba quais lembranças ele desperta.

E faça a si mesma uma pergunta: Do que eu gostava antes de começar a me preocupar tanto com o que os outros pensariam?

Talvez a resposta revele partes suas que ficaram esquecidas pelo caminho.

Quando encontrar essa criança, não tente consertá-la. Apenas se aproxime. Imagine-se abaixando até a altura dela, olhando em seus olhos, pegando-a pela mão e dizendo: “Eu vejo você. Nós conseguimos. Agora você pode ser criança, porque eu cuido do caminho.”

A vida adulta continuará exigindo responsabilidade. Mas responsabilidade não precisa significar peso.

Talvez amadurecer seja justamente isso: tornar-se adulta sem abandonar aquela parte de nós que ainda sabe se encantar.

Segure a mão dela e siga.

A vida pode continuar sendo adulta, sem deixar de ser colorida.

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desenvolvido porCamila Marqui